15) quem estiver no eirado não desça, nem entre para tirar alguma coisa da sua casa;
16) e quem estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa. (Mc 13:14-16)
15) Quando, pois, virdes estar no lugar santo a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel (quem lê, entenda),
16) então os que estiverem na Judeia fujam para os montes;
17) quem estiver no eirado não desça para tirar as coisas de sua casa,
18) e quem estiver no campo não volte atrás para apanhar a sua capa. (Mt XXIV, 15-18)
20) Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.
21) Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes; os que estiverem dentro da cidade, saiam; e os que estiverem nos campos não entrem nela. (Lc 21:20-21)Gnosticismo
Evangelho de Tomé - Logion 113
14) Ora, quando vós virdes a abominação da desolação estar onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes;
O ato de ver é o resultado de “vigiar”. As almas que buscam sua purificação permanecem com sua lâmpada acesa e bem provida de azeite; são almas prudentes que vigiam e em consequência veem, descobrem, se dão conta. Isto é um fato que traz a redenção por si mesmo, pois o que estava oculto se manifesta e disso resulta a alma conhecedora do que ignorava.
Este é o método ensinado por Jesus para consumar a Boa Nova. Primeiro é necessário praticar a conversão, logo vem vigiar, estar atento, e por último, tudo consiste em “ver”, dar-se conta. Quando se chega a esta terceira fase, tudo o que havia se revela e tudo cumprimento de consuma.
Isto é o que ocorre com isso que o evangelista denomina “a abominação da desolação” (gr bdelygma tes eremoseos), tomada de Daniel (9,27; 11,31; 12,11) e 1 Macabeus (1,54). Por “abominação” há que entender o impuro, o execrável, e por “desolação”, o devastado, convertido em deserto e portanto levado a ser ermo, infecundo.
O que Jesus o Vivente quer esclarecer para toda a geração humana através de seus discípulos, segundo seu discurso, é que o “coração espiritual” do homem, o Lugar Santo e recôndito que cada um tenta nomear como o si mesmo quando diz Eu, Eu Sou, foi reservado desde o princípio dos tempos para morada do Espírito de Deus. Instalado nesse Lugar Santo, o Espírito de Deus é o verdadeiro Ser imaculado do homem, o Ser que, por outra parte, o homem, sua consciência, não conhece.
A causa de sua ignorância do Ser recobre a alma ao Espírito de Deus com inumeráveis véus de sombra, até o ponto que quando a alma diz Eu, Eu Sou, o que imagina e nomeia realmente não é o Espírito de Deus senão um usurpador, um imitador do Espírito, um abominável “eu” de origem psicológico, isto é, criado e sustentado só pela mente.
Assim é como frente ao Eu verdadeiro, a fonte eterna de luz e de vida, erige a alma um eu mortal que invejoso da eternidade que ele não tem, se levanta com sua presença imaginária em funções do Adversário de Deus. Isto é o que profetizou Daniel quando disse: “Profanarão a cidade la do templo, abolirão o sacrifício perpétuo e porão ali a abominação da desolação” (Dn 11,31).
Profanação é com efeito e não pouco erigir na sede da fonte da vida o Baal desolador; esta profanação consiste primeiro em abolir o sacrifício constante, a adoração permanente em espírito e em verdade em favor do povo de Deus. Este, o povo de Deus, está conformado por todas as lâmpada individualizadas, ainda que acesas e virginais, em se dispersa o Espírito de Deus. Quando alguma dessas lâmpadas não recebe o reconhecimento de sua existência, equivale a “colocar o sobre o altar dos holocaustos a abominação desoladora” (1M 1,54).
Contra isso o que vem é “Ver”, dar-se conta, como prólogo a uma quarentena de purificação no deserto. Nessa passagem santa que “aparece” desolada, o protagonista da devastação é sempre o Adversário. Segundo contam os evangelistas, Jesus cumpriu no deserto o decretado pelo Espírito, e ao descobrir ao Ímpio o expulsou do Lugar — de seu coração — onde não deve estar. Com isto ensinou a obra de conhecimento que todo homem toca cumprir antes de empreender seu Caminho pela Boa Nova. Como disse Daniel: “A abominação da desolação estará... até que a ruína decretada se derrame sobre o desolador” (Dn 9,27b).
Na segunda epístola aos tessalonicenses se explica isto: “Primeiro — diz — tem que vir a apostasia (a negação do Eu verdadeiro), e manifestar-se (ser descoberto) o Homem ímpio, o Filho de perdição, o Adversário, que se eleva sobre tudo o que leva o nome de Deus, até o extremo de sentar-se ele mesmo no Santuário de Deus (no Lugar Santo) e proclamar que ele mesmo é Deus (2Ts 2,3-4).
O bom entendimento deste texto epistolar é sumamente revelador e conduz até as portas da consumação; mas é necessário compreender muito bem que o Espírito de Deus e o Adversário, podem “aparece” sentados, pela ignorância do homem, no mesmo Lugar Santo. Daí a confusão que sobrevém em muitos.
Quando tal como propôs Jesus no deserto se procede a expulsar ao Homem ímpio, se descobre que em sua sede sagrada jamais houve outra coisa que o Espírito de Deus, porque não há dois senhores, senão um só Senhor.
Foi a alma que viu dois senhores onde havia um só. Foi a alma aquela que viu uma ilha onde reinava o oceano sem bordas; o Filho de perdição ode estava o Filho de Deus. Mas nunca, em nenhum lugar, se sentou o Adversário no trono de Deus.
O inciso exortatório do evangelista, “o que leia que entenda”, revela que a obra escrita de Marcos e de Mateus é uma transcrição das expressões de Jesus o Vivente e que o relato que transmitem tem um alto voo parabólico que os evangelistas temem que não seja bem compreendido.
15) quem estiver no eirado não desça, nem entre para tirar alguma coisa da sua casa;
16) e quem estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa.
Com sua exortação à fuga aconselha Jesus alijar-se de qualquer colocação da consciência em lugares psíquicos próximos ao falso reino do Adversário. Ao dizer “Judeia” menciona o evangelista a passagem desolada na qual miticamente habita o devastador. NO deserto de Judeia foi tentado Jesus, e ali infligiu Jesus a primeira e introdutória derrota ao Ímpio quando este manifestou sua presença de usurpador. Só muito mais tarde, quando Satanás entrou em Judas, ficou consumada a sentença da Escritura: “O que come meu pão levantou contra mim seu calcanhar” (Jo 13,18).
A oposição deserto-monte, muito peculiar em toda escritura, denota a diferença entre os lugares “baixos” devastados pelo usurpador e as regiões “altas”, propícias à experiência teofânica, porque nelas habita Deus.
Por esse motivo é exortado não à fuga, senão ao permanecer onde está, aquele que vive no telhado, lugar situado na altura, como o monte. O conselho que recebe é o de não entrar em sua casa para buscar algo. É o mesmo aviso que o deu a Lot o anjo quando lhe disse: “Não olhes para trás nem pares. Escapa para o monte” (Gn 19,17). O que seguramente fazem os evangelistas com isso é comparar a “casa” e suas coisas, com a arca de todos os conteúdos subconscientes alojados na alma. Trazê-los à lembrança nos dias críticos de guerra contra o usurpador tem um perigo de regressão nada recomendável para o que se aloja ainda em precário nas alturas limpas do telhado.
Por uma razão parecida se sugere ao que vive “no campo” — na região inferior da alma — que não regresse para recuperar seu manto. É possível que com este manto queiram significar os evangelistas a identificação com o corpo enquanto este é envoltura da alma. O conselho evangélico serve para nos recordar agora que quando Elias cruzou as águas (psíquicas) a pé enxuto, teve que retirar o manto e não o recuperou porque logo preferiu ser arrebatado pelo carro de fogo.